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Jorge Moreira da Silva*
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Mudança
Climática – sinais e previsões
Já nem os mais
cínicos duvidam da base cientifica das Alterações Climáticas.
Existe uma relação de causa e efeito entre o aumento das
emissões de gases com efeito de estufa, decorrentes do nosso
modelo de consumo e produção, e o aumento da temperatura na
Terra. Os sinais são manifestamente preocupantes: a
temperatura aumentou nos últimos 100 anos 0,5ºC tendo ocorrido
uma subida sustentada a partir de 1970; os 11 anos mais
quentes ocorreram depois de 1983; a década de 90 foi a mais
quente dos últimos 150 anos; no Verão de 2003 atingiram-se os
máximos históricos em várias localidades do Sul da Europa;
alguns rios congelam mais tarde e descongelam mais cedo;
existe uma migração anómala de algumas espécies de aves;
ocorreu uma diminuição, de 3m para 1,5m, nos últimos 20 anos,
da calote polar Ártica. Ora, de acordo com as previsões do
Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, que
reúne cerca de 2500 cientistas, os sinais da mudança climática
serão fortemente agravados nos próximos 100 anos: espera-se
que a temperatura aumente nos próximos 100 anos 5,8ºC e que o
nível do mar aumente em 88cm; 500 milhões de desalojados;
surgirão fenómenos climáticos extremos como furacões,
tempestades, inundações e tornados; ocorrerá um degelo dos
glaciares e dos mares gelados, desencadeando uma significativa
subida do nível do mar acompanhada da destruição de muitas
zonas do litoral e até do afundamento de algumas ilhas;
diminuirão os stocks alimentares e aparecerão, em zonas de
clima moderado, doenças antes exclusivas dos climas tropicais.
Relativamente a Portugal, as previsões (avançadas pelo
projecto SIAM) são igualmente assustadoras: 2/3 do litoral
português será alvo da erosão, sendo que o seu custo de
reparação e mitigação, ascenderá 2500 milhões de euros; a
temperatura média poderá aumentar em 10ºC no interior e o
número de dias com temperatura superior a 35ºC poderá aumentar
de 20 para 90 no Sudoeste de Portugal.
A importância do Protocolo de Quioto
Face a isto,
facilmente se percebe até que ponto é determinante uma
resposta global da parte da comunidade internacional. O
Protocolo de Quioto representa essa resposta. Depois de dez
longos anos de negociações, a sua redacção foi concluída em
2001 e espera-se que, até ao fim de 2003, entre em vigor. No
quadro do Protocolo de Quioto, asseguraremos que os custos das
externalidades do Aquecimento Global passem a ser
internalizados na nossa economia. A tonelada de carbono terá
uma cotação no mercado e as emissões de dióxido de carbono
representarão um custo a repercutir nos preços de todos os
produtos e actividades. No quadro do protocolo de Quioto
sabemos quanto cumprir (reduzir em 5,2%, entre 1990 e 2012, as
emissões mundiais de gases com efeito de estufa), com que
instrumentos cumprir e quanto custa não cumprir. Quem for
capaz de produzir o mesmo, fazendo uso de tecnologias mais
limpas, vencerá nesta nova economia: a Economia do Carbono.
As emissões na União Europeia
Uma consulta
rápida da evolução da União Europeia, em matéria de emissões,
poderia deixar-nos confiantes quanto ao cumprimento das metas
de Quioto: reduzimos em 4%, entre 1990 e 2002, as nossas
emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e estamos, por
isso, com metade do compromisso de Quioto (-8%) cumprido. No
entanto, a realidade é mais dura. Depois de consultados os
dados nacionais, conclui-se que este bom desempenho se deve
única e exclusivamente às reduções realizadas em Inglaterra e
na Alemanha. O desempenho dos outros Estados-membros deixa
muito a desejar (em especial Portugal, Espanha, Itália,
Irlanda e Grécia). E, mesmo relativamente às reduções operadas
em Inglaterra e na Alemanha, elas devem-se mais a
externalidades decorrentes, no primeiro caso, da transformação
das centrais eléctricas a carvão para gás natural e, no
segundo caso, da reconversão industrial da ex-RDA, do que de
uma estratégia orientada especificamente para o problema do
efeito de estufa.
É, por isso,
compreensível que a UE tenha vindo a trabalhar no desenho de
um conjunto de instrumentos comunitários de redução de GEE.
Esta abordagem, upstream, permitirá não apenas economias de
escala, potenciando dessa forma reduções nacionais mais
rápidas e mais baratas, mas também contornar, por via
comunitária, algum imobilismo nacional.
A estratégia da UE
A abordagem
comunitária baseia-se em dois grandes instrumentos: o sistema
europeu de comércio de direitos de emissão de dióxido de
carbono e o Programa Europeu para as Alterações Climáticas (ECCP).
Este programa já identificou mais de 40 potenciais medidas de
redução das emissões em todos os sectores económicos e está a
ultimar um trem de dez directivas e iniciativas legislativas,
a aplicar nos próximos anos, de redução das emissões nos
transportes, na indústria e na energia. Estas directivas
contabilizam um potencial de redução de 122 a 178 milhões de
toneladas de GEE na União Europeia (correspondendo a metade do
nosso compromisso europeu de -8%). Estas medidas terão um
baixo custo de implementação – menos de 20 euros por tonelada
de dióxido de carbono abatido.
O Sistema Europeu de Comércio de Emissões
O Sistema Europeu
de Comércio de Emissões arrancará em 2005, compreendendo dois
períodos temporais (2005-2008 e 2008-2012) e englobará mais de
10 mil empresas europeias do sector da energia (combustão,
refinarias, fornos de coque) e da indústria (siderurgia,
cimento, cerâmica, vidro, papel e celuloses), correspondentes
a mais de 46% de todas as emissões europeias de dióxido de
carbono. Serão atribuidos, pelos Estados, direitos de emissão
às empresas e, no final de cada ano, as empresas têm de
restituir às autoridades nacionais direitos de emissão
equivalentes às suas emissões reais de gases com efeito de
estufa (GEE) nesse ano. Assim, as empresas têm de tomar uma
de duas decisões - realizar imediatamente investimentos em
novas tecnologias de forma a reduzir as suas emissões de GEE
(e vendendo no mercado de emissões os direitos de emissão que
lhe sobram) ou adiar esses investimentos em novas tecnologias
(e, entretanto, comprar no mercado os direitos de emissão de
que necessitam).
Este sistema vai,
pela primeira vez na União Europeia, utilizar um mecanismo de
mercado para resolver um grave problema ambiental (as
Alterações Climáticas) e permitirá, por um lado, corrigir, já
a partir de 2005, a situação de autêntica derrapagem dos
compromissos de Quioto na maioria dos Estados-membros e, por
outro, reduzir fortemente os custos de implementação dos
compromissos assumidos pela União Europeia em Quioto. Estima-se
que esta redução dos custos seja da ordem dos 35%,
correspondendo a uma economia de mais de 1300 milhões de
euros, por ano, até 2010, na UE.
Portugal ?
De acordo com o
Protocolo de Quioto, Portugal poderia aumentar as suas
emissões de GEE dos 60Mton, registados em 1990, para 76,2Mton,
em 2012. Ora, os dados da Agência Europeia do Ambiente e do
Plano Nacional para as Alterações Climáticas, mostram que
Portugal já ultrapassou (registando 84Mton), em 2002, a sua
quota prevista para 2012, estando assim obrigado a reduzir, a
partir de hoje, as suas emissões de GEE em 20Mton de forma a
cumprir Quioto.
É verdade que a
Directiva do Comércio de Emissões terá a enorme vantagem de
assegurar, em Portugal, uma redução em 10 M de toneladas de
CO2, até 2012, nos sectores da indústria e da energia, mas não
é menos verdade que falta decidir como cortar as outras 10 M
de toneladas de CO2. Essa decisão terá de ser tomada a nível
nacional e, não mais, a nível europeu.
Na minha opinião,
é crucial que, por um lado se avance, com o protagonismo dos
municípios portugueses, na introdução de medidas pacíficas
como a promoção das energias renováveis e do gás natural, a
aposta na agricultura biológica e na eficiência energética na
indústria e nos edifícios, a introdução de medidas
facilitadoras do uso do transporte, de carga e de passageiros,
por via marítima e ferroviária, o alargamento da rede de
transportes públicos, e a investigação na área dos novos
combustíveis e dos novos motores. Contudo, é igualmente
necessário – em nome da racionalidade económica e da verdade
ambiental - colocar em prática algumas medidas claramente
impopulares como, por exemplo, o fim dos subsídios à indústria
dos combustíveis fósseis e a implementação da tributação sobre
a energia e sobre as emissões de dióxido de carbono nos
transportes. Importa recordar que o sector dos transportes é o
principal responsável não apenas congestão da vida nas cidades
como pelo aumento exponencial das emissões de gases com efeito
de estufa em Portugal. As consequências económicas, sociais e
ambientais da mudança climática são muito superiores ao custo
económico e político das medidas de mitigação. Coragem, exige-se.l
* Eurodeputado; Relator Permanente
para as Alterações Climáticas
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