|
|
|

Eduardo oliveira fernandes
|
Portugal
depende de energia importada em cerca de 90 por cento. Apenas
cerca de 10 por cento vem de recursos energéticos endógenos:
hidroelectricidade, eólica e biomassa. A hidroelectricidade e
a eólica só são tornadas úteis pela via única da electricidade
enquanto a biomassa ainda é muito usada para a produção de
calor e, mais recentemente, para a produção conjunta de calor
e de electricidade.
Não fora a
amenidade do nosso clima e o ainda relativo desconforto com
que a maioria dos portugueses vive nas suas casas e aquela
dependência, assegurada por combustíveis fósseis (petróleo,
carvão e gás natural) seria ainda maior.
E, no entanto,
Portugal tem na energia solar (luz e calor) um recurso cujo
potencial não tem sabido utilizar. Desde logo, como factor
ambiental, o Sol é causa de amenidade climática com reflexos
reconhecidos na atractividade turística mas, também, como
parâmetro não dispiciendo no favorecimento do conforto no
ambiente construído quando a arquitectura e as tecnologias da
construção são ordenadas nesse sentido. A ser assim, as
necessidades de aquecimento de Inverno e de arrefecimento de
Verão serão muito menores do que as correspondentes em países
de climas extremos. Isto, obviamente, se a arquitectura e a
construção não tornarem, como vai ocorrendo demasiadas vezes,
o comportamento dos edifícios pior do que o do clima: “mais
quentes no Verão e mais frios no Inverno”, conforme diz o
Prof. Rafael Serra da Escola Politécnica de Barcelona.
Mas o Sol, para
além dessas oportunidades exploradas pelas designadas
tecnologias solares passivas (arquitectura e construção
inteligente) que tornam os edifícios mais confortaveis, menos
energíveros e mais amigos do ambiente (1), oferece toda uma
gama de outras oportunidades tecnológicas, quase todas mágicas
e sofisticadas e de efeito muito próximo do cidadão. É o caso
da iluminação natural, hoje em dia quantificavel e simulável
por modelos rigorosos e que permite deslocar/reduzir
significativos consumos de energia comercial em iluminação
artificial; é ainda o caso da produção descentralizada de
electricidade por efeito fotovoltaico (2); e, é, enfim, o caso
da preparação das águas quentes sanitárias (AQS) por sistemas
de colectores solares apoiados por electricidade ou gás
natural.
O Programa Água
Quente Solar para Portugal (AQSpP), criado no âmbito do
programa E4 (Eficiência Energética e Energias Endógenas),
entretanto sucedido pela Resolução do Conselho de Ministros
63/2003 de 28 de Abril, tem como objectivo alcançar um ritmo
de instalação de 150 mil m2 de colectores solares por ano, ou
seja cerca de 25 vezes o ritmo actual, e, poder, assim, chegar
a 2010 com cerca de 1 milhão m2 instalados, isto é, cerca de
dez por cento dos colectores instalados na Europa dos 27.
Uma iniciativa
Pública apoiada pelo POE (e seu sucessor) permite apoiar todas
as acções de lançamento, de informação, de certificação e de
observatório, esclarecendo, nomeadamente, como e onde se podem
obter os incentivos fiscais e outros disponíveis.
Da relevância
desta iniciativa falam os números: os portugueses usam em AQS
cerca de 20 por cento de toda a energia que utilizam nos seus
lares ou seja cerca de quatro por cento do balanço da energia
final do nosos país, o que por sua vez equivale a cerca de um
terço de toda a produção eléctrica de origem hídrica e eólica
actual.
É esse universo
de consumos de energia-calor altamente dispersos que oferece o
potencial para a instalação de alguns milhões de metros
quadrados criando um novo mercado com dimensão sustentável num
horizonte de 20 a 30 anos, em condições de garantia de
qualidade e em moldes inovadores, associando o Sol ao gás
natural e/ou à electricidade e criando a prática do
fornecimento do serviço de água quente por terceiros sobretudo
em casos em que tal se justifique (blocos de habitação; hoteis;
lares; etc.).
Com o que se
deixa dito acima procura-se responder a um problema nacional
de aprovisionamento energético pela diversificação e com
respeito pelo ambiente mas não é de menosprezar o impulso que
daí pode advir para novos mercados de novas tecnologias e de
novos serviços num valor da ordem dos dois milhões de euros
por ano com reflexos económicos e sociais, nomedamente no
emprego, dispersos por todo o país.
Não pode, em
última instância, esquecer-se ainda o papel cultural deste
programa enquanto alavanca de uma consciência cívica que urge
criar para o aproveitamento dos recursos energéticos
disponíveis, estimulando atitudes de tipo “bottom up” de
cidadãos conscientes e não meros consumidores de uma
‘electricidade anónima’ que tanto pode vir do carvão
fortemente poluidor como da anódina eólica. O AQSpP foi assim
designado com o multiplo objectivo de ‘mexer’ com a tecnologia
e com o mercado até ao mais pequeno e remoto dos promotores e
ao mais isolados dos utilizadores.
Em sintonia com o
Programa 3E (Eficiência Energética dos Edifícios ) este
programa é, porventura, o mais propício à promoção da mudança
cultural que se iniciou com o respeito pelo uso da água, se
continuou com a crescente consciência ambiental, do ruído à
separação dos resíduos que cada um produz, e se deseja que
prossiga com uma atitude de responsabilidade energética
expressa em atitudes de eficiência e em comportamentos de
respeito pelos recursos energéticos próprios, nomeadamente
pelo Sol.
Podem fazer-se
muitas mudanças no sistema energético mas sem perder de vista
o grande objectivo que é a mudança do paradigma energético,
com expressão cultural alargada à generalidade da população. l
|