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 Editorial

Incêndios, (I)mobilidade, Ineficiência energética

Nada de novo na ponta ocidental

 

CARLOS PERALTA

Numa passagem do artigo “As alterações climáticas e a economia do carbono” do eurodeputado Jorge Moreira da Silva, que publicamos neste número, pode ler-se:

 “...é crucial que, por um lado, se avance com o protagonismo dos municípios portugueses, na introdução de medidas pacíficas como a promoção das energias renováveis e do gás natural, a aposta na agricultura biológica e na eficiência energética na indústria e nos edifícios, a introdução de medidas facilitadoras do uso do transporte, de carga e de passageiros, por via marítima e ferroviária, o alargamento da rede de transportes públicos e a investigação na área dos novos combustíveis e dos novos motores…”

São duas as razões para iniciar este editorial com esta citação.

– A primeira assenta no facto do autor designar as medidas por pacíficas, – quem diria? – já que a seguir fala da necessidade de outras, essas impopulares.

A verdade é que estas medidas ditas “pacíficas”, ainda que surjam em alguns discursos para lhes dar um toque politicamente correcto, ou não avançam, ou só o fazem no papel, pois, na realidade, nunca são assumidas como prioridade e garantia de futuro sustentável. Veja-se, por exemplo, a dificuldade que tem tido para “descolar” o programa “Água Quente Solar para Portugal” cujo interesse nacional está bem patente no artigo do Professor Oliveira Fernandes, que também publicamos.

– A segunda razão resulta de termos assistido, nestas últimas semanas, a um fenómeno no mínimo estranho, se não fosse revelador de ignorância ou má fé. Por um lado, houve um grande alarme com os incêndios, o despertar para a constatação de que, afinal somos um país florestal (já esta revista o tinha escrito em Maio, bem antes dos fogos), um alerta para as alterações climáticas que nos vão dar muitos verões iguais a este; por outro lado, assistiu-se por parte de certos editorialistas e opinadores a manifestações de contentamento, porque a Semana Europeia da Mobilidade e o Dia Europeu “Na cidade sem o meu carro” estavam aparentemente mais fracos e menos mobilizadores. Como se os transportes, sobretudo o transporte individual, não tivessem nada que ver com as alterações climáticas, com o efeito de estufa e, por consequência, com os incêndios.

E se o eurodeputado Moreira da Silva termina o seu artigo com a frase “Coragem, exige-se”, outros optaram  por meras medidas simbólicas, “porque segunda-feira perturba quem trabalha, o que é preciso são medidas de fundo,...”. De acordo, mas que medidas de fundo é que tomaram  ao longo do ano e que irão tomar ao longo do próximo?

O Dia Sem Carros, caso não tivesse outros méritos, tem o de fazer pensar e discutir estas questões. É que a subida da temperatura média em quase seis graus e a do nível do mar em quase um metro é já na vida dos nossos netos. Ou tornámo-nos numa sociedade de tal forma egoísta e sem qualquer visão estratégica que já nem o bem estar dos descendentes directos nos preocupa?

 

Jogos Olímpicos em Portugal  

– dinheiro não é o problema

Também ligado ao desenvolvimento, embora de outro modo, permito-me destacar a defesa feita pelo presidente do Comité Olímpico de uma candidatura de Portugal (nominalmente Lisboa), aos Jogos Olímpicos de 2016. Como seria possível espalhar as muitas modalidades pelo País, esse projecto mobilizaria todo o território nacional e permitiria, até lá, dar o desejado salto qualitativo no desporto e educação física nacionais. Foi isso que aconteceu em Espanha e na Grécia. E, como diz o comandante José Vicente Moura, o dinheiro envolvido não é muito e o necessário é fácil de obter. Que os nossos velhos do Restelo não comecem, mais uma vez, a contribuir para o imobilismo e para a falta de audácia.l

 

 

 

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